A “festa” da democracia.

 



 

Como tem gente nessa sexta-feira pré-eleição aqui no Natal Shopping. Parece que todos os colégios mandaram suas turmas fazerem barulho nos corredores para entregá-los aos seus pais devidamente exaustos.

Nossa, como conseguem tanta energia! E saber que um dia eu também era assim. Sei que faz tempo, mas só em lembrar já é uma vitória. Porque tem muita gente que promete e não cumpre, mas, coitado, deve ser a idade e uma vida nada regrada.

Eu só tenho problema de esquecimento na hora de pagar minhas contas. Chega a ser crônico. Porém, no mais, eu lembro até os detalhes. Já fui até a um médico, contudo não dei prosseguimento ao tratamento.

O interessante é que um político amigo meu também sofre desse mesmo mal. Sendo que o caso dele é bem mais grave do que o meu, pois ele esqueceu até que éramos amigos. Só por eu ter prometido votar nele e, na hora, me deu um branco horrível.

Mas esse ano eu vou levar uma cola. Por que não? Eu levava para o Marista, com uma vigilância severa, quanto mais em um localzinho somente eu e a urna, que é cega, surda e muda. Se brincar, dá até para colar aqueles versinhos de banheiro:

“Nesse local solitário onde o fraco faz força...”

Eu queria muito esquecer que tenho que ir votar, mas minha mulher não deixa. Acho que ela deve ser cabo eleitoral de algum candidato. Mas, na verdade, ela não sabe é o valor da multa que se paga por não votar.

Então vamos nós três, minha mulher, filha e eu, rezando para não encontrar nenhum conhecido para não ter que conversar merda.

Eu não vou perguntar em quem ele vai votar. Se ele perguntar para mim, vou ser taxado de maluco, pois minha resposta será: ainda não sei.

Com certeza ele vai achar que sou um imbecil completo, pois meio até eu me acho.

Portanto, quem me conhece não venha puxar conversinha besta em um acontecimento tão solene. Afinal, é a festa da democracia, sem brigadeiro e guaraná.

Nos corredores, fila de um lado e do outro. E sempre tem aquele espertinho se fazendo de doido, olhando por cima das cabeças como se estivesse procurando alguém ou o local em que estava.

Quando a gente pensa que vai andar, aí vem um grito que todo mundo finge aceitar:

— Preferencial.

Escuta-se o chamado para o Epaminondas, de 95 anos, se arrastar até a urna.

Epaminondas poderia entrar na urna e embarcar.

Na apuração, será: votos brancos, nulos, válidos e Epaminondas.

Depois de 25 minutos, sai o Epaminondas sem fazer a mínima ideia do que estava fazendo ali.

Eu fiquei pensando: logo o Tio Paulo chega para votar também.

Eu continuo na fila que não sai do lugar. Já me encostei na parede, bufei, conferi a cola dos candidatos e já considero mudar alguns nomes, pois não merecem o meu sacrifício.

O corredor vai ficando cada vez mais apertado.

Aí aparece uma mocinha com uma criança de colo, loura e de olhos azuis, e ela parecendo uma porta-bandeira da Mocidade de Padre Miguel.

Acho que eu já vi essa criança umas quatro vezes.

Deve estar sendo alugada para furar a fila como prioridade “criança de colo”.

Ainda tenho vontade de perguntar a um dos “fiscais”:

— Tem alguma fila especial para quem escreve merda?

Passou um soldado fardado. Eu acho que nem era soldado, era um escoteiro, mas também furou a fila.

O médico e o bombeiro passaram na frente, e um padre queria passar também. Segundo ele, iria dar a extrema-unção a um tal de Epaminondas.

Tem também aquelas autoridades que vêm com um crachá que parece uma tela de 60 polegadas e adentram a seção só para mostrar que entram e saem na hora que bem querem.

Logo, ele é cercado pelos fiscais de algum partido, reclamando de alguma bobagem, mas eles têm que mostrar algum serviço.

E assim vai passando o meu dia.

Me resta aguardar ter tudo resolvido, sem ter que voltar ao calvário novamente.

A festa pode até ser da democracia, mas bem que podia ser em um amplo e ventilado salão.

 

 

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

No final da balada tem conveniência... tem sim, senhor.

O Google está de Migué

Uma Mentirinha Besta