Sem título para não chamar atenção
Minha mulher e minha filha vão viajar por uns doze dias. É elas indo para o aeroporto e eu me dirigindo ao supermercado com uma única missão:
Comprar pratos, talheres e copos descartáveis.
Durante esse período, a pia da cozinha vai criar teia de aranha e o fogão será utilizado apenas para a água do café. E nada mais.
Já o sanitário será usado somente para o número um, pois o tão camuflado dois será feito na toalete do shopping.
A nossa cama só vai ser feita no dia do regresso delas e, se brincar, até os dentes só vou escovar nessa grande data.
A cuequinha, com freadas e derrapadas, deverá ir direto para o lixo, e a toalha, já com cheiro de cachorro molhado, acompanhará aquela peça íntima.
Vai ser assim. Desprendimento total, inclusive dos ovos, que vão ficar badalando ao vento durante muito tempo.
Esse período será como um acampamento, com a diferença que a casa estará sempre com muita luz acesa. Dizem que barata não gosta de claridade.
Mas já planejei: vou dormir às dezenove horas, deixando pouca margem para a indesejável presença. Mas, para que isso funcione plenamente, deverei estar acordando por volta das três e quarenta da madrugada.
Tudo bem. Dia raiando e eu, pelado, olhando o nascer do sol.
Vai ser a primeira vez que meus ovos verão o nascer de um dia.
Agora é esperar e torcer para ela não ler esta crônica, pois, se ela ler, vai mandar eu forrar a cama.
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