Querido, cheguei!
Nesse exato momento, minha mulher e filha estão cruzando o Atlântico, voltando de Xangai, a uma altitude tão grande que, se o Arcanjo Miguel soltar um pum, elas escutam. Aí vocês, queridos leitores, me perguntam:
— E você, inspiração dos meus dias, o que está fazendo?
Eu te responderei. Acabei de lavar o banheiro e, a uma altura que pode dar diarreia em todos os arcanjos, não escuto nada. Mas a vontade foi de colocar uma placa na porta do banheiro: Proibido Cagar.
Então, essa tarefa já está feita e, por sinal, muito bem executada. Agora vou começar a atender o pedido da minha filha e começar os preparativos para a feijoada tão sonhada por ela, mas antes vou comprar orquídeas — Kátia ama orquídeas.
Bem, foram doze dias que me serviram para mostrar que não sei viver sem elas. Meu Deus, à medida que os dias iam passando, eu me sentia cada vez mais só. Até o shopping perdeu a graça. Os filmes em cartaz não me interessavam. Até o Homem-Aranha foi desprezado e, para o amigo ter uma ideia, a única coisa que me distraía era o Fluminense.
Os pastéis e empadas foram perdendo o sabor a cada volta dos ponteiros, e o “como qualquer coisa” foi sendo meu prato preferido. Apenas o bom café me satisfazia, pois queimava o céu da minha boca, me mostrando que ainda estava vivo.
Apenas para lhe situar, continuei escovando os dentes e tomando banho. Não era uma coisa que se diga: “Uau, que banho!”, não. Mas dava para o gasto. E a nossa cama, que eu jurei que não ia fazer, fiz todos os dias, com os cuidados como se estivesse sendo filmado.
Agora é uma questão de horas para ver minha vida entrar por aquele portão, e eu estarei pronto para trabalhar, pois levaram quatro malas e compraram mais duas, das grandes. Ela chegou a me perguntar o que eu queria. Pedi um perfume. O que eu estou usando, toda vez que coloco, começo a espirrar.
Na verdade, o que eu queria mesmo era ter coragem de fazer um bom bife à milanesa com purê de batatas. Chega de “qualquer coisa”.
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