E o Henrique hein?

                                 

Impressionante como essa tal de idade me persegue. Certo dia, encontrei o Henrique. Meu Deus, me deu vontade de ir direto para a harmonização facial.

Era aquele rosto liso, um topetão que parecia o do Elvis, uma aparência de quem toma suco verde no desjejum, não come carne e malha de manhã, de tarde e de noite. Perto dele, eu parecia um artista de filme de terror, com barriga e tetinhas. Eu chega era triste, arrependido porque entrei na droga do elevador, coisa que eu nem gosto.

Não vou nem falar dos trajes do Henrique pelo simples fato de que eu não sei nem o nome daquelas peças. Para mim, aquilo não é um sapato, é algo transcendental. E lá vai eu tentando esconder meus tênis atrás de uma sacola da Renner.

Olha, meu amigo, foi o percurso mais longo que eu já fiz em um elevador. Acho que ele fez Rocas/Quintas e eu nem senti.

Os dentes dele pareciam porcelana. Acho que a última cárie que ele teve foi em 1981. E eu, rindo pelo canto da boca para não mostrar os meus, que são naturais, mas longe da perfeição dentária que ele insistia em mostrar.

Eu tenho para mim que ele deve estar muito bem de vida. Ninguém nesse mundo ri naquela altura devendo. E o perfume, com certeza, deve ser exclusivo. Se eu coloco um daquele, minha mulher ia perguntar se eu estava andando com puta.

Aí você vai perguntar, meu amigo:

— Luciano, mas o Henrique não tem nada de ruim?

Tem, meu amigo. A calça.

Era uma branca bem apertada, dessas que partem a cachada dos ovos em duas, e um lenço lilás no pescoço. A princípio, pensei que fosse a moda em Paris ou caxumba.

Mas, quando ele atendeu o celular, entregou o ouro de bandeja.

— Diga, amor... Aham... Aham. Tá na gaveta das minhas calcinhas.

Aí dei graças a Deus por ser o velho e bom Luciano. Ao sair do elevador, ainda soltei uma bufa de tapioca com ovo e deixei para ele curtir enquanto descia ao subsolo.

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