O Velório


Quer ser a melhor pessoa da Terra? Então morra. É simples assim: você passa de mesquinho, mau-caráter e egotista para generoso, ótima pessoa e prestativo assim que lhe depositam em um caixão, seja lá de qual madeira for. Naturalmente que a qualidade do pinho é diretamente proporcional às suas posses e aos presentes ali, moderadamente comovidos, pensando o quanto aquele safado roubou e agora iria prestar contas.

Conversas sussurradas e piadas sobre os chifres da viúva já rolam mesmo antes da chegada das primeiras coroas de flores enviadas pelos colaboradores da empresa — não em sinal de despedida, mas de alívio. A viúva, valendo-se de um finíssimo véu negro, pede desculpas ao marido falecido por ter peidado no lenço que adorna a lapela do desprezível De Cujus. Os filhos, cabisbaixos, tentam avaliar a fortuna que o ausente pai, agora por completo, deixou, já planejando passar a perna na irmã de criação, fruto de uma trepada com a arrumadeira na própria cama do casal e apresentada à família em uma linda cesta de vime como um presente dos céus.

Muita gente vai chegando, todos com aquela falsa fisionomia de pesar, pois ninguém adentra um ambiente desses sorrindo. Embora fosse essa a vontade da maioria ali presente, muitos foram apenas para se certificar de que o escroto já tinha ido dessa para, segundo a vontade dos presentes, uma pior.

O maior problema ficava por conta do padre, que tinha que oferecer o corpo e não tinha a mínima ideia a quem iria oferecer aquela coisa desprezível. Logo após o representante da igreja inventar lindas passagens sobre a vida do finado, veio a vez dos amigos… qual amigo?

— Alguém quer falar algumas palavras? Alguém? — perguntou o sacerdote, ansioso por ter mais alguém para compartilhar o pecado da mentira.

Silêncio. Apenas o som distante de uma propaganda política de um dos inúmeros desafetos do presunto — Parma, mas presunto.

Caixão fechado e o silêncio truando no recinto. O sócio de tantos anos, exibindo seu relógio Oriente — presente safado por cinquenta anos de trabalho que facilitou a compra de inúmeros Rolex pelo maquiado cadáver —, ainda pensou: "Se tem alguém aqui que merece aplausos é o pessoal do centro de velório, pois vai dar fim a esse filho da puta igual ao que o gato faz com sua merda."

A viúva finge enxugar uma lágrima que sua conjuntivite crônica faz rolar pelo rosto, ainda com a cicatriz da briga que a fez empurrar escada abaixo o saudoso marido.

Luciano Veiga Fernandes

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