O fim da alça PQP

Três anos após um melancólico adeus, pude ver a nossa garagem preenchida com um carro novinho em folha.

Foram muitos táxis e Uber, muitas conversas e, o mais interessante, eu já tinha me acostumado. Eu me adapto rápido às situações, principalmente às boas, claro.

Contudo, ainda não dirigi o nosso novo veículo. Ele é desses, tipo ferro elétrico: você taca na tomada e pronto.

Foram tantos anos sentado no banco do carona que já vou no automático. Para mim, o mais difícil vai ser abrir mão da alça PQP e não ter com quem falar mal do governo.

Agora passarei a ser um condutor teleguiado pelas modernidades embarcadas e pela minha mulher. Imagine, queridíssimo leitor: foram três anos sem ouvir:

— Olhe o carro!

— Dê a setinha!

— Freie, freie...

Ela deve estar com sangue nos olhos.

O carro é desses sabidos; se brincar, até tapioca no coco ele faz. Já o condutor é do tempo analógico. Será que ele vai se adaptar à minha pegada? Sou do tempo em que se estacionava apenas olhando os retrovisores, e não uma tela com uma trena e um apito.

Entretanto, vamos aproveitar a modernidade e curtir todos os avisos sonoros como se fossem uma canção angelical. Entre ouvir os apitos do carro e seguir as orientações da minha mulher, prefiro acreditar que a tecnologia veio para facilitar a vida.

Agora, meu amigo, se ela ler esta crônica, nem no banco do carona eu vou.

Luciano Veiga Fernandes

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