O Boleto
Existem algumas lembranças que voltam mesmo que você não queira. O amigo está vendo futebol e... aparece na sua mente aquele boleto atrasado. E o que é mais triste: pela sua perspectiva, ele vai continuar atrasado ad aeternum.
Eu não sei, querido amigo, como um infeliz de um boleto pode atormentar tanto uma pessoa. Nunca pensei que um dia eu fosse preferir conviver com minha sogra a dividir meus pensamentos com ele.
E, para piorar, alguma engraçadinha, que não tem nada melhor para fazer, fica me ligando para saber quando eu vou pagar. Eu já disse todos os dias possíveis: amanhã, depois do feriado, na próxima quinta-feira... Já não tenho mais opções. O jeito é começar a utilizar o ano bissexto.
Claro que não atendo mais às ligações. Contudo, fico preocupado. E se eles me ligarem perdoando minha dívida e eu não atender? Vou perder o perdão por falta de um alô. Mas não vou arriscar. Mesmo porque, a essa altura, eles já devem estar me chamando de todo tipo de nome. De velhaco a filho da puta, deve ser assim que sou conhecido no escritório de cobrança.
Eu não vou nem utilizar aquela frase: “Devo, sim. Pago quando puder.” E se eles ficarem sabendo o dia em que eu posso? A fila aqui na rua vai ser enorme. Vai ter até vendedor de pipoca — com pagamento à vista.
Contudo, eu acredito muito na bondade do ser humano. Vai chegar a hora em que os cobradores vão se unir e quitar minha dívida. Inclusive, já fiz uma promessa: prometi um dízimo de mil reais, pago em dez boletos. Porque acho que a Santa Sé não vai colocar esses boletos em um escritório de cobrança.
— Bom dia. Falo com o Sr. Luciano?
— Sim, sou eu.
— Sr. Luciano, aqui é o padre Salatiel, da Paróquia Menino Jesus. Estamos com nove boletos em aberto e gostaríamos de uma previsão de pagamento.
— Alô... Sr. Luciano... Alô...
Eu não gosto de negociar com atravessador.
Vou pagar essa conta diretamente ao chefe dele quando Ele voltar aqui. Já vou deixar prontas as doze promissórias.
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