Eu Não Sirvo Para Isso

“Eu podia estar matando, roubando ou me prostituindo”, mas estou aqui, do seu lado, com uma crônica leve e bem-humorada. Até porque eu não mato nem barata, não sou político e, a essa altura da vida, me prostituir é o atestado de insanidade mental.

Então, meu amigo, tenho que procurar outro refrão para não arrancar risos no lugar de piedade. Poderia usar algo assim:

- Então, gente, eu podia estar matando, roubando, mas resolvi me prostituir. Estou até em promoção... ou;

- Pessoal, hoje eu não estou matando nem me prostituindo, mas roubando. Vamos passando os celulares e carteiras. Aceito Ticket.

Também posso usar uma linguagem mais forte.

E a última, que eu utilizo no gerúndio, é a melhor:

- Aí, ó, hoje eu não vou estar roubando nem me prostituindo...

Naturalmente, em todas as opções eu vou ser vaiado ou atirado do ônibus a pontapés. Eu causo o mesmo pânico que o Bob Esponja, logo posso afirmar que, para essa atividade, eu não me adequaria. Poderia tentar a política, sim. Poderia. E seria um daqueles que só pega no que é dele quando vai urinar.

Eu não faria por menos: no meu gabinete tinha logo uma mala, digo, baú para colocar propina. Quer falar comigo... pague logo a entrada. Igual a cinema. Ia ser bajulado por quase todos e invejado por todos.

- Olha só, excelência, esse “Luciano”, acostumado a comer xique-xique e mascar fumo de rolo, já está fumando charuto e bebendo uísque em Londres. Ia ser assim: teve propina, tinha minha comissão. Já era conhecido pelos corredores e nas listas das empreiteiras como “Primeiro o Meu”.

E se um dia fosse perguntado pelo sucesso na minha vida pública, eu responderia:

- Eu poderia estar matando ou me prostituindo, mas fiz a escolha certa. 

Agora, só aqui pra nós, claro que isso é uma sátira e eles não responderiam isso. Mas, lá no fundo, acham que escolheram a alternativa correta. Afinal, já fizeram tantas vezes e continuam fazendo que não pode ser um desvio de conduta: é a própria conduta.

 

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