Alugado para o IML
Não sei se acontece com você, mas tem dias em que minha cabeça é um vazio. Quero escrever e não tem nada. Já estou pensando em postar receitas culinárias do tipo: buchada vegana, suco verde de xique-xique, doce de carrapateira e a especialidade da casa – calango na brasa. Coisas bem do Nordeste que paulistas vão amar.
Já me vejo em um programa desses que passa a manhã remoendo um cardápio que brasileiros nunca irão utilizar. Gente, a nossa geladeira é diferente das de vocês, e nossa despensa simplesmente deu lugar a um lavabo.
O freezer posso até alugar ao Instituto de Medicina Legal – IML –, pois não há utilidade na casa desse aposentado lindo e inteligente. E pensar que comprei uma duplex... quanta ingenuidade, achando que ia entupir de picanha e colocar a Heineken para gelar. Hoje é tão inútil quanto peito de homem.
Mas é uma bonitona, pronta para suportar mais litros do que Sobradinho antes do vazamento. Parece um salão de festas da “melhor idade”: aquilo amplo, iluminando uma banda de melancia – comprada com a finalidade de preencher o espaço –, leite e água, e muito ímã na porta, contrastando com o desértico interior. E ainda por cima sonoriza o ambiente com um irritante apitinho, avisando que a porta está aberta.
Vou tomar água, volto e, quando me sento no sofá, ela olha para mim e começa a apitar. Eu me levanto e já vou falando:
— Já vai, já vai. Não sei onde estou que não pego esse seu apito e envio no teu cu.
Sou muito sincero para te falar, meu amigo: não sei se vou ter condições de encher a bichona. Às vezes me sinto como o proprietário de algo além das minhas posses. Mas, convenhamos, não ficaria bem, na minha cozinha, uma caixa térmica. As visitas vão pensar que eu vendo picolé na praia.
Bem, caro amigo, está muito calor. Vou abrir a porta do freezer — antes que o IML mande as mercadorias — e depois nos falamos.
.png)
Comentários