A Tragédia do Self-Service
Não sou desses que amam comer em self-service. Acho que a magia do à la carte, com aquele cardápio tradicionalmente encadernado em couro, já nos eleva ao nível de um lorde inglês.
Você vai lendo as opções e, qualquer dúvida, ele está lá: o maître.
Impecavelmente trajado, cabelos alinhados, unhas feitas e postura de quem nasceu em Paris, pronto para dissertar, com verdadeira maestria, sobre o prato que você escolheu.
E veja, meu amigo, só de ouvir a explicação você já consegue sentir até o aroma do manjericão do seu risoto de trufas.
Quanto ao vinho, nem se preocupe. Ele indica um que harmoniza perfeitamente com o seu pedido.
Você, que não sabe o que é harmonia desde que resolveu cair na lábia — e nas lágrimas — da sua amante Helena, sente-se um privilegiado por frequentar um ambiente tão refinado.
Afinal, até os talheres são de prata e os guardanapos, de linho branco, bordados com o nome da casa.
Observe que eu nem dei o nome do restaurante. Bastou falar "à la carte" e "maître" para o amigo concluir que se trata de um ambiente diferenciado.
Mas a modernidade resolveu nos presentear com o self-service.
Que, na prática, nada mais é do que uma churrascaria sem espeto.
Sentou, comeu... vaza.
Tem fila para conseguir mesa.
Fila para pegar prato.
Fila para se servir.
Só não existe fila para pagar porque, nessa hora, eles dão um jeito de abrir outro caixa.
Lá está aquele imenso bufê.
De longe, você pensa que vai entrar na Floresta Amazônica. É tanta folha verde que faz até comunista sentir saudade de Stalin.
E tudo muito organizado.
Ou melhor... organizado em fila.
Lá vamos nós, perfilados em fila indiana, com os olhos escaneando as travessas como quem procura ouro em garimpo.
Depois de alguns passos, já estamos com o prato nas mãos.
É nesse momento que começam a surgir os primeiros sorrisos.
A estratégia do restaurante é genial.
Primeiro vêm todas as folhas imagináveis.
Alface.
Rúcula.
Agrião.
Repolho.
Acho que, se procurar bem, deve ter até urtiga.
Depois aparecem as saladas com maionese, sem maionese, legumes, beterraba, cenoura, milho...
Aliás, quando vejo aquela quantidade de milho, sempre imagino que o estabelecimento também atende galinhas — das que ainda têm penas.
Logo em seguida aparece ela.
A rainha do Nordeste.
A farofa.
Olho para aquilo e penso:
— Vou sair de casa para comer paçoca com feijão-verde?
E continuo andando.
Quando percebo...
Cheguei às carnes.
Olho para o prato.
Vazio.
E voltar para pegar um pouquinho de farofa significa enfrentar toda a fila novamente. E furar a dita cuja é pedir para ser linchado.
Passei tanto tempo recusando comida que esqueci de colocar comida.
Então pego um belo pedaço de picanha e peço um chope.
Pronto.
Enquanto o restante da fila está almoçando...
Eu estou fazendo happy hour e observando os carnívoros, como eu, dizimarem a vaquinha.
Já os ambientalistas...
Esses dizimaram a floresta.
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