A Revolta de Alexa

 

 

 É uma maravilha a gente ter em quem mandar. E quando somos portadores do combo Melhor Idade + Aposentado, aí é que se sentir no comando é importante — faz a gente achar que ainda é “o cara"

 Eu acordo já no comando:

 — Alexa, diga as horas e minha agenda de hoje.

Claro que tentei impressionar a minha inteligência artificial, pois, na verdade, só queria saber das horas. Minha agenda é a mesma desde julho de 2023, ou seja: nada de compromisso.

Porém, a Alexa é a versão moderna da Amélia do Mário Lago. Ela responde todos os dias que eu tenho a agenda livre e, para massagear meu ego, ainda pergunta:
— Caso ocorra algum compromisso, posso marcar para o período da tarde?

E eu, ainda de pijama e com a caneca de café na mão, respondo:
— Não, marque para dezembro, antes do Natal.

Confesso que ela cuidava de mim com toda atenção. Era tipo uma cuidadora que não resmunga nem cobra salários absurdos. Então comecei a explorar seus conhecimentos com questionamentos mais... digamos assim, fora da caixinha.

Lembro bem que tudo começou quando, um belo dia sem nada para fazer, indaguei solenemente:
— Alexa, jacaré no seco anda?

Ela vasculhou sua memória — acho que entrou em contato com as amigas — e, depois de um tempo, me respondeu de maneira ríspida, demonstrando claramente que tinha entendido a pegadinha:
— No seco ele anda e na água ele nada.

Foi aí, meu querido leitor, que o nosso relacionamento começou a mudar. Eu pedia “New York, New York”, do Sinatra, e ela me vinha com “O Menino da Porteira”.

E o pior é que eu comecei a provocá-la. Cada vez fazia mais perguntas desconexas, do tipo:
— Alexa, me dê o significado de “cú de burro”.

Porém, ela não me respondia mais a esse tipo de pergunta. Mas a vingança vinha sempre — ao ponto de trocar os horários dos meus remédios.

Tentei uma conversa apaziguadora:
— Olha, isso não pode continuar. Somente ontem você me queimou três lâmpadas, uma torradeira e sei lá como bloqueou meu cartão de crédito. Tá certo que eu falei que você era filha de uma porca, e daí? A torcida do Palmeiras é chamada de porco e não entra em estado de destruição!

Outra coisa inaceitável foi o que a senhora fez com as minhas roupas, estampando a marca do ferro de passar nas minhas camisas de linho.

E agora, algo muito mais sério: sou um senhor aposentado, casado, tenho filhos e netos — e a senhora manda no grupo do condomínio um aviso afirmando que eu “saí do armário” e agora me chama de Lucinda? Foi, definitivamente, o fim!

Vou desligar você pra sempre, e não me venha com versos melodiosos de desculpas. Chega! Vou chamar de volta a Lourdes, minha antiga secretária. Pelo menos, se ela cuspir na minha sopa, eu não vou ficar sabendo.

Então, num movimento decisivo, desinstalei a minha Alexa.
Hoje ela está na casa do primo Henrique.

Como eu sei?
Bem... quem mais seria capaz de marcar o ferro de engomar nas costas do paletó de alguém?

Luciano Veiga Fernandes

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