A Importância da Insignificância
Um vice, suplente ou reserva só tem uma finalidade:
Azarar o titular.
E ponto final.
Não me venha, amigo leitor e titular das minhas considerações, querer me convencer de que um vice-presidente, todas as noites, reza um terço pela saúde e pela segurança do presidente. Nem mesmo um chef de cozinha está a salvo das pragas que o seu subchef lhe roga a cada instante em que ele se aproxima do óleo quente.
Isso é válido até para o esporte. No futebol, por exemplo, o goleiro reserva, sentadinho ali no banco, não está rogando a Deus pela boa performance do titular. Claro que não. Suas preces são para que ele tome um frango — ou melhor, um aviário completo — ou bata com a cabeça na trave e vá direto para o hospital. Não se iluda quando a ambulância adentra o gramado. As lágrimas do suplente são de felicidade.
Professor substituto. Até o título é deprimente. Esse deve fazer até promessa, se não negociar direto com o diabo, para apagar de vez o “substituto” e colocar, em letras garrafais e em negrito, o “titular”. Em casa, sua amada faz questão de jogar em seu rosto a prova do seu incompetente sucesso.
— Não é possível, Nélio! O máximo que você conseguiu foi ser o substituto do Agnaldo, logo ele, que tem uma saúde de ferro.
Na política, a escolha de um vice deve ser feita mediante um check-up completo.
— Senador, as eleições estão aí e você precisa escolher o seu suplente. Já marquei os seus exames para sexta-feira.
A escolha do suplente vai ser inversamente proporcional às condições de saúde do titular. Ou você acha que Tancredo Neves escolheu Sarney pelo seu lindo bigode?
O mais difícil é escolher suplente de presidente de sindicato. Tem alguns que têm quatro suplentes. Deve ser por isso que eles botam o pessoal da família. E secretários têm com força: primeiro-secretário, segundo-secretário... enésimo-secretário. Se todos comparecerem a uma reunião, vão empilhar secretários.
Mas essa invenção de ter alguém na sua sombra é coisa recente. Você pode ver que Jesus tinha doze apóstolos. Não definiu os titulares e os reservas.
— João, enquanto Pedro foi à Galileia, você assume o seu lugar.
Não consta uma passagem dessas nem no Velho nem no Novo Testamento.
Mas a gente tinha que abrir o leque de oportunidades até para legumes ou frutos.
Agora, meu amigo, vou te confessar. Eu já fui vice duas vezes.
A primeira, fui vice-líder de classe. Durou três dias. O presidente desistiu e eu também. Afinal, eu queria ser vice, não titular.
E a segunda, eu era vice-presidente das Indústrias de Torrefação e Moagem de Café do RN. Porém, quando o presidente faleceu, eu não tinha mais empresa. Logo, não assumi.
Também vamos ser sinceros...
Eu seria um presidente muito merda mesmo.
Honesto, mas merda.
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